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Alex Solnik e a sedução de Vinicius,

o garoto de Ipanema

por Nádia Timm

Alex Solnik é jornalista. Daqueles raros, com alma de artista.

Poeta, compositor e escritor, nesta entrevista, ele conta como surgiu o livro
Garoto de Ipanema publicado pela editora Códex.

 


Centrada em Vinicius de Moraes, a biografia reúne papos baca-
nas. A maioria em alto astral. Às vezes, sentimentais, carregados daque-
le lirismo que tornou o poeta sinônimo de paixão. Outras vezes, icono-
clastas.  Impregnados de irreverência cheia de graça, num tesão bem
estilo Vinicius.


Conversa vai, conversa vem, assim foi se formando a biografia,
em documentário e livro criados a partir de lembranças. Histórias da
vida de quem teve o prazer de conhecer, de pertinho uma alegria que
veio e passou, o brilho menino de um inesquecível poeta.


Alex Sonik até aquela data, outubro de 2004, tinha publicado
quatro livros: Por que não deu certo, A verdade por trás das câmeras, A
Guerra do Apagão e Garoto de Ipanema
.

NT - Qual sua relação com a obra do poeta?


AS - Não tive qualquer relação com a obra dele antes de fazer o livro e o
documentário, que deu origem ao livro. O Vinicius sempre foi um mito
pra mim. Um cara diferente de qualquer outro.
Só que ele foi um enorme poeta, um imenso letrista, um maravilhoso
dramaturgo, sem deixar de viver como homem. Nunca falei com ele en-
quanto viveu. Até o encontrei uma vez, mas não tive coragem de falar
com ele. Achava que ele nem ia me responder.
Ah, agora me lembrei de uma relação com a obra dele: acho que foi no
ginásio, fiz parte de um grupo que declamou aquele poema “Filhos? Me-
lhor não tê-los... mas se não tê-los, como sabê-los...?”


NT - Garoto de Ipanema registra a partir da biografia de um artista,
um longo período a história brasileira e internacional. As entrevistas
foram pautadas em quais parâmetros?


AS - Procurei as pessoas que conviveram com ele. Eu não queria falar
com críticos da obra dele ou historiadores. Queria ouvir das pessoas que
estiveram ao lado dele, histórias que viveram com ele, e assim unir os
pedaços para formar a pessoa que ele foi.
Não importava a posição desse amigo. Podia ser um garçom, desde que
tivesse histórias a contar.

NT - Como foram os bastidores do trabalho?


AS- Tudo começou com o documentário. Eu estava duro. Propor o do-
cumentário foi uma forma de pagar meu aluguel. Além, é claro, de fazer
uma coisa muito legal.
Não foi fácil. Há pessoas fáceis e difíceis. Nana Caymmi é fácil, mara-
vilhosa. Topou na hora. Quando chegou pra gravar, falou: mas por que
você me chamou? Eu não tenho nada pra contar. Mas foi só ligar a câ-
mera e ela não parava mais de contar histórias e falar coisas incríveis
como “se Vinicius e meu pai fossem homossexuais estariam casados até
hoje, na Bahia”.
O documentário teve seis depoimentos; o livro, 12. Muitos deles, por te-
lefone. Zélia Gattai, por telefone. Nunca tinha falado com ela na vida.
Ferreira Gullar, por telefone. Sergio Cabral, por telefone. Lan, por tele-
fone. Bem, a conta foi alta. E fui entrevistando cada um.
Eu não falei assim: escreve um depoimento e me envia. Não. Fui per-
guntando, conversando. Um entrevistado indicava outro.
O Ziraldo (que não quis falar, disse que não tinha histórias) indicou a
Maria Christina Gurjão. Ela me enviou o testamento que o Vinicius dei-
xou pra ela. Quase ninguém conhecia. Já a filha dela com Vincius não
quis falar.
A Mariana de Moraes, neta do Vinicius, falou, mas depois não autori-
zou. Os filhos... bem, deixa pra lá. Os filhos são os filhos. Família é fa-
mília.

NT - Em que sentido o livro ajuda a compor uma visão de Vinicius?


AS - Cada um contou histórias diferentes. De atividades diferentes. Fa-

ses diferentes. Uma que eu achei legal foi a do Haroldo Costa. Na minha
cabeça, o “Orfeu” foi montado num estalar de dedos. Vinicius decidiu e
a grana apareceu.
Quando o Haroldo contou que o Orfeu só foi montado porque na feijo-
ada apareceu um egípcio milionário, namorado de uma amiga do Vini-
cius, eu quase caí pra trás.

NT- Você evitou invasão da privacidade ou não determinou limites?


AS - Não dá pra mostrar quem foi um cara sem mostrar sua privacida-
de. As pessoas são o que falam, o que fazem, o que se fala sobre elas, o
que deixaram na memória. Vinicius nunca ligou para a privacidade. Se
ligasse, teria feito shows com um copo de uísque na mão?   

NT - Pintou alguma resistência de familiares, qual foi a participação deles?


AS - Os amigos, as mulheres, os parceiros conheceram melhor o Vini-
cius que a sua família. Ele pouco conviveu com os filhos. Não dava tem-
po. Depois, filho tem aquele negócio: será que eu posso contar isso do
meu pai? Sempre fica em dúvida.  Isso é bom contar? Isso é ruim?
Vinicius viveu mais nos botecos do que em casa. Passava o tempo ao
lado dos parceiros; ou sozinho, escrevendo; bebendo, sozinho ou com
amigos. Filho admira. Adora. Herda. Mas não tem o que falar. Você já
viu algum filho do Chico Buarque falar sobre o Chico? O filho do Tom
Jobim falar sobre o pai?



 

NT - Alguns aspectos da personalidade e do comportamento de Vi-
nicius - como valorizar a beleza da mulher, gostar de um uisquinho,
ter casado tantas vezes - são super conhecidos do grande público, e
muitas vezes apontados como sinais de machismo.
No seu livro, o conjunto dos depoimentos abre a dimensão amorosa,
apaixonada e intensa do artista. Isto foi uma surpresa?


AS - Vinicius era muitos. Não era um só. Era romântico, devasso,
apaixonado, chulo. Ele tanto podia fazer um verso lindo como olhar
uma bunda. É o que conta a Nana. Passava uma bunda, Vinicius não
perdoava.

Ele fez coisas como qualquer um. Como, por exemplo, atacando a mu-
lher a caminho do banheiro. Vinicius não tinha medo. Aliás, tem uma
frase muito chula dele que era assim: “Enquanto eu tiver língua e dedo,
mulher nenhuma me mete medo”.
Não adianta colocar Vinicius n um pedestal. Sabe o que ele faria num
pedestal? Xixi...

NT - O material com Toquinho rendeu, enquanto o depoimento
de Jorginho Guinle, apesar de lacônico, lembra que Vinicius viveu
numa época tão cheia de glamour, quanto de tabus.
O que sentiu ao lidar com lembranças compartilhadas pelos mais im-
portantes artistas da história da música contemporânea?


AS - Foi a última entrevista do Jorginho. Ele morreu uns dois meses de-
pois, eu acho. Não podia nem falar direito. Só falou porque era sobre
Vinicius. Mas a Christina Gurjão contou que quando saiu vendendo o
livro do Orfeu, Jorginho não comprou. Com toda aquela grana.
Era amigão do Vinicius, tinha uma grana preta mas não comprou o li-
vro cujas vendas financiaram a montagem da peça. É difícil dizer o que
eu senti. A cada frase eu sentia uma coisa. E sofria. Sofri quando Francis
Hime, depois de ter marcado encontro, desistiu.
Mas o Carlinhos Lyra, que gênio! A Miúcha, que graça. A família Buar-
que. Fui muito amigo da irmã dela, Ana de Hollanda. Uma cantora in-
crível. Se não fosse irmã do Chico.

NT - É possível estabelecer vínculos entre Vinicius e os artistas de
hoje?

AS - Nádia: todos os brasileiros amam o Vinicius. E também os artistas.
Esse é o vínculo. Você já viu alguém falar mal do Vinicius nos últimos
90 anos? Esse cara não existe! Enchia a cara, mas não era um bêbado.
Fazia letra de música, mas não deixava de ser poeta.
Não tem artista igual a ele. Nem parecido. Nunca haverá.

NT - Qual foi a entrevista mais gostosa de fazer?


AS- Essa que você está fazendo.

NT - Em sua opinião, a obra de Vinicius tem recebido o devido valor
no Brasil e no exterior?


AS - Pra variar, o Brasil não ama seus artistas como eles merecem. Aqui
é mais fácil esculhambar que elogiar. Vinicius teria que ter uma estátua.
Um museu. O cara é um monumento.
Mas o que se conhece da obra dele? Quantos poemas dele são temas de
aulas de literatura? Nas faculdades de Letras tinha que ter uma cadeira
Vinicius de Moraes. Esse cara tinha que ser estudado. Nos outros países
ouve-se mais músicas dele do que aqui. Muito mais.
Brasileiro prefere fazer piada a uma homenagem. A gente não é chega-
do em homenagem. Logo vão dizer: ah, você é puxa-saco! O máximo
foi chamarem uma Rua de Vinicius de Moraes. Mas Vinicius merecia
ser nome de país!

NT- Existe algum projeto de peso no Brasil para manter a chama da
arte Vinicius, voltado para as novas gerações?


AS - Isso é com as filhas dele. Elas são as donas de tudo o que ele fez. São
donas de sua imagem. Nada se faz sobre ele sem elas. Elas fizeram um
site maravilhoso, www.viniciusdemoraes
Mas nem a Globo tinha como homenagear Vinicius. Pergunte ao Boni.
Se Vinicius fosse meu pai, eu ia adorar que sua imagem virasse um pos-
ter nacional. Que os poemas dele fossem a logomarca do Fantástico, do
Jornal Nacional. Por que Vinicius não foi meu pai?

NT - Como a obra é recebida pelo público? Qual a agenda de lança-
mentos?

AS - A minha agenda de lançamentos é você, Nádia. Você, com a tua
força espontânea, juvenil, alegre, viva, você que não me conhece, não
sabe se sou feio ou bonito, se sou vesgo ou coxo, se sou gordo ou ma-
gro, se tenho mau hálito, se tenho pensamentos tortos, você, Nádia, é
minha agenda.
Você é que está com a chama do Vinicius na mão. Acesa, levando pro

pódio. Você é tudo. Se vou pra Goiânia? Pra Brasília? Quem sabe? Quan-
do, não sei.

NT - Em que projetos você está trabalhando?

AS - Eu sou editor-executivo de uma revista que circula em Brasília. Talvez
em Goiânia também. É a SRAS & SRS Faço muitas entrevistas. Depois, faço
revistas por encomenda, adoro fazer revistas. Escrever, editar. Faço poesias
de vez em quando. Músicas. Tenho um parceiro, o Sergio Mello. Temos 100
músicas prontas. Veja um poema que escrevi pro Vinicius:

Ave poeta cheio de graça
nuvem de fumaça
a caminho da UTI
do Itamaraty
Poeta nosso que estás
no céu de Ipanema
rogai por nós, poetas menores
agora e na hora dos nossos porres
Ave poeta que sempre nasces
porque nunca morres

NT - Como concilia jornalismo e literatura?

AS - Tudo é uma coisa só. É escrever. Juntar palavras. Jornalismo ou li-
teratura, tanto faz. É uma palavra atrás da outra. Ficção ou realidade? É
tudo realidade. É tudo ficção.
Ah, tenho um projeto muito legal: um livro sobre o Brasil em 1840. Foi
ano em que Dom Pedro II tinha 14 anos e comprou a primeira máquina
fotográfica do país. E um francês plantou aqui a primeira colônia socia-
lista do mundo. Claro que foi acusado de tudo, até de sedução. Era, de
fato, um cara, sedutor.

NT – O que gostaria de acrescentar?

AS - Nádia, teu nome é lindo. Timm, um sobrenome mais lindo ainda.
Amo esse nome. Amo você. Fale mais comigo.
Mas queria acrescentar o seguinte:
“Sou um russo que desaprendeu o russo e não aprendeu o português.
O Chico Buarque não gosta de mim. Mas sua irmã gosta. (Ou gostava.)
Eu sou aquele que comeu a entrevistada.
Eu sou aquele que perguntou ao Medeiros qual mulher falava ao seu pau.
Eu sou aquele a quem o Gilberto Gil, antes de ser ministro, disse que ex-
perimentou homem, mas era muito picante...
Sou aquele em quem o Paulo Caruso tentou passar uma rasteira...
O Mario Borgneth não gosta de mim. Nem eu dele.
O Robson Moreira não gosta de mim. E eu dele muito
Meus ídolos são Beto Carrero,  Mino Carta, Hamilton Almeida Filho e
Tarso de Castro.
Meu prato favorito é um pedaço de pão. Melhor ainda se for com alho.
Eu sou aquele que não atura a censura. Mesmo quando não há ditadura.
Eu sou aquele que pergunta. Porque não tem respostas.
Já fiz amor em vários lugares. Até numa revista.
Fiquei preso, em 1973, por 45 dias. Fiz 45 poesias. (Mas, por favor, da
próxima vez espero que me forneçam papel e lápis.)
A cigana me disse que vou ficar rico fazendo teatro. Pano rápido.
Quem ama, não mata. Mas manda prender.
Duas mulheres quase me mandaram pra prisão. Assim saberiam aonde
eu dormiria toda noite.
O casamento tem dois momentos alegres. Quando começa. E quando
termina.”
É isso aí.
Alex

 

*Esta entrevista faz parte do livro Incondicionalmente Livre.

Última modificação em Quinta, 18 Agosto 2016 17:25
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