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O Coração da Matéria - entrevista com Fernanda Montenegro

 

 por Nádia Timm


Fernanda Montenegro é protagonista de uma história que reúne bastidores do jornalismo provinciano do Brasil. Era uma vez uma edição do Festival de Cinema de Brasília que já foi, nos anos 60, e por muitas décadas, sinônimo de vanguarda, de arte, diretamente conectado ao Cinema Novo.

 

A atriz Fernanda Montenegro considerada a grande dama do teatro do Brasil foi homenageada do 30° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1997. Naquele tempo, apesar da pequena distância entre Brasília e Goiânia, nenhum jornal goiano se interessava em cobrir o mais antigo evento de cinema do país.

 

Por ter vivido e trabalhado em Brasília, consegui credenciamento como repórter, porém a organização do festival não forneceu passagem, hospedagem e alimentação. O que era praxe para qualquer jornalista do Brasil, ou do exterior, não era para os goianos, talvez em função da rixa de vizinhos, eram taxados de caipiras e burros.

Por outro lado, nem o maior veículo de comunicação de Goiás quis bancar a hospedagem, ou a viagem, apesar do evento ter a perspectiva de render manchetes e muitas páginas de assuntos interessantes aos leitores.

 

Assim era passado o recibo de burrice e o atestado caipirismo.  Para você ver a enorme distância de interesses e de mentalidade, que existia entre Goiânia e Brasília. Eram dois planetas separados por quilômetros de muito preconceito.


Para conseguir desenvolver o trabalho jornalístico me dispus a viajar de ônibus, sem direito a hotel, investi no autopatrocínio. E valeu à pena, em especial por um grande momento: a inesquecível entrevista exclusiva com Fernanda Montenegro.

 

Considerada diva, esta carioca da gema, tijucana, que nasceu no Rio de Janeiro, a 16 de outubro de 1929 e iniciou sua carreira em 1950, merecia ser incensada como um ícone. Uma grande artista que superou muitas barreiras, entre tantas, em primeiro lugar, o preconceito de gênero que tornava, e ainda torna, tão difícil a vida das brasileiras e de outros milhões de terráqueas.

 

A entrevista foi concedida antes da cerimônia oficial, em pleno hall do Hotel Nacional de Brasília, QG tradicional do evento, desde os tempos do Cinema Novo, quando reunia Glauber Rocha e gente disposta a fazer cinema autoral. Sem atropelos, ou disputa de gravadores e microfones, porque cheguei no momento exato, por pura sorte, sem outro repórter no pedaço.


Fernanda Montenegro falou sobre o tema quente naquele momento, a mobilização dos artistas contra as medidas econômicas do presidente Fernando Henrique Cardoso que estavam para ser votadas.


Esbanjando elegância e magnetismo de rainha, se expressando não só por meio das palavras, mas também por sua postura impecável, energia irradiante, a estrela observou que as três décadas do Festival representariam 300 anos em um país com forte tradição cultural.


O som de sua voz, num tom suave e firme era acompanhado por seu olhar direto nos meus olhos. Concentrada, fascinada por aquele ser, ainda lembro de minha admiração pela beleza natural da artista, que mulher rara.

 

Depois, mais tarde, na cerimônia no palco do Cine Brasília, em seu discurso, Fernanda Montenegro lembrou o quanto a cultura foi massacrada no governo Collor e reivindicou. “Delicadamente, mas firmemente, peço ao governo que reveja o problema da cultura neste pacote, porque a cultura é o coração da matéria”.

 

Adorei o “delicadamente, mas firmemente” e fiquei embevecida com cada palavra que brotava das pausas, do silêncio marcado pela emoção e verdade. Também sei tietar. No ano seguinte, a artista arrasou no filme Central do Brasil de Walter Salles concorrendo ao Oscar de melhor atriz e ganhando o Urso deOuro, no Festival de Berlim, em 1999.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E para demonstrar, mais uma vez, de novo e novamente como a lentidão é uma das marcas da política brasileira, quase dez anos depois, em 2008, o apelo de Fernanda Montenegro não tinha encontrado ressonância, nem tido algum efeito nas atitudes dos donos do país: cantor Gilberto Gil pediu demissão do cargo de Ministro da Cultura do Lula sem conseguirque um por cento do orçamento fosse destinado à Cultura.

Um por cento!
Veja como a entrevista é atemporal.

 

NT - Qual o papel do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro no cenário
atual?


FM- É um festival muito importante para este País. Ele vem sendo realizado
todos estes anos e neste momento agora, que é muito delicado, o festival
está presente, é atuante, reivindicativo. Porque é sério, não desanima. Diante
da dificuldade, arreda a dificuldade. Se não é por aqui, vai por ali. Então,
esta permanência do Festival de Cinema de Brasília dá a dimensão de um
evento importante, de qualidade, e que agora já é necessário, inarredável.


É um marco. Há um pacote aí e nós artistas temos reivindicações a fazer.
Nós sabemos que o setor cultural vai ser contemplado, ele vai ser atendido
nas suas expectativas. O cinema é uma força, o cinema é um país.

NT - Mas a cultura não é considerada prioridade...


FM - A cultura é o sal da terra, é o coração da matéria. Não é um investimento
de abalar a estrutura de um país e sabemos também que nosso
trabalho não é individual e abrange muita gente, seja no cinema, teatro, na
dança, na música... Existe uma série de etapas.


NT - A senhora está acompanhando a movimentação dos artistas no
Congresso?


FM - Não, eu assinei a reivindicação, mas não vim porque eu estou gravando
a novela. Gravei segunda, terça e quarta, me deram quinta para vir aqui
e amanhã já volto. Não estive no Congresso, nem no Ministério da Cultura,
mas os meus colegas estiveram. Eu também estou no abaixo-assinado.


NT - E como estão as negociações?

FM - Eu acho que seremos atendidos. Tenho certeza.O presidente Fernando Henrique
Cardoso é um homem de cultura. É um intelectual. O nosso ministro da Cultura,
Francisco Weffort, também é um homem qualificado, que está levando com
muito acerto e muito capricho o seu ministério.


Além do que, há representantes no país que a gente sabe que são pessoas que cuidam
da cultura. Destaco o Sérgio Motta, destaco o Antônio Carlos Magalhães.
No caso do presidente do Senado, eu sei que é um homem que entende as
nossas reivindicações. Não tem o que temer. Nem nós tememos, chegamos
aqui pedindo uma audiência para sermos atendidos. Não estamos pedindo
nada que possa arruinar o País. E não é nada para um grupo, porque cultura
é para todo mundo.


Um filme você faz para todo mundo, uma peça que você faça, um museu
que constrói, a recuperação de um monumento histórico, não é? Ou a recuperação
de um patrimônio arquitetônico. Isso é para todo mundo.

 


NT – A senhora recebeu o primeiro Candango, como melhor atriz, no primeiro
Festival de Brasília e agora está sendo homenageada. Como se sente?


FM- Eu acho isto muito bonito. Para um país como o nosso, onde todo o
ano você começa com um tipo de vida diferente, você saber que tem um
festival de cinema com estes anos todos, não é? E também a gente, como
profissional insistiu estes anos todos. Tem uma hora em que a gente, novamente,
está presente neste espaço, onde se realiza este festival. Fiz alguns
filmes importantes, fiz pouco cinema, mas fiz filmes importantes.


NT- Como está seu trabalho no cinema?


FM - Estou participando de dois filmes que entram no circuito no ano que
vem. Um é Central do Brasil, de Walter Salles Júnior, cujo roteiro ganhou o
primeiro lugar no Sundance, concorrendo com três mil roteiros. Estou em
outros três curtas, que formam um filme inteiro do livro Traição de Nelson
Rodrigues, com diretores como Cláudio Torres, Luiz Henrique da Fonseca
e Arthur Fontes. Todos jovens. Então, estar aqui é muito bonito. Tanto que
a gente quebrou lanças. Estou fazendo uma novela, no maior pique, me
sinto envaidecida.


NT - Qual o seu recado para as novas gerações de artistas brasileiros?


FM - Não podem se apavorar com a ilusão. Muita gente pensa que é um
caminho que não rende, que não contribui, que somos uma perfumaria.
Nós somos importantes. Ter esta convicção e fazer o seu trabalho, isto é o
que importa.

 

*Este  texto faz parte do livro "Era Uma Vez....... Outra Vez....... mais uma vez .......e  mais outra.......", de Nádia Timm.

Última modificação em Domingo, 10 Julho 2016 22:00
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