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Suíça, de trem

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O Vernissage da Madame Artista

ilustração de Marcelo Henrique ilustração de Marcelo Henrique
Publicado em Crônicas Di-Versos
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Naquela tarde azul e luminosa, estava muito feliz.
Havia pintado horas a fio.
Na tela, flores estilizadas formadas por respingos e manchas a deixaram encantada com seu próprio talento, sensibilidade única, genialidade e brilho de estrela.


por Nádia Timm


Vestiu-se com esmero, se perfumou, evitou falar com as filhas, duas
adolescentes que não suportava, e de ter qualquer contato com as empregadas.
Não queria ser acessível a quem não valesse à pena. Isso significa
que só ofereceria o lindo sorriso de ex-miss e seu olhar a quem tivesse uma
excelente conta no banco.


Amanhã, será um grande dia, o do vernissage, sucesso e aplausos.
Vai provocar muita inveja com as matérias no jornal, nas televisões, bombando
na Internet. Seu nome nas manchetes estará nas esquinas, nos salões
de beleza, melhores restaurantes, boates e shoppings da província caipira.
Naquela noite, ficou horas pendurada no telefone, convidando as
amigas, se exibindo, esnobando. O convite caríssimo e cafona criado por
ela foi distribuído às autoridades, aos políticos e empresários a quem tinha
interesse em bajular.


Maria Luíza Ferreira Leite Monteiro e Silva. Um nome para ficar na
história da arte de Goiás, do Brasil e do mundo. Ela era uma Artista! Estava
num patamar acima de qualquer mortal. Imaginava sua foto publicada
no jornal: cabelos loiros e longos, pele radiante, maquiagem perfeita, close
divino, vestida impecavelmente como a protagonista rica de uma novela da
Globo, as mãos sob o queixo, o olhar de tédio.


Passou a madrugada caminhando pelo apartamento. A emoção de
ser alguém tão especial, dotada de tanto talento, beleza e poder a jogava
para o alto, no cimo dos montes do Olimpo. Não dormiu, apesar do calmante.
Mal o Sol nasceu, possuída pela expectativa de sair no jornal mais
importante da cidade delirava, se imaginando em exposições em Paris,
Nova York e Miami, nas capas das revistas, na ilha de Caras.


Mandou algum serviçal correr até a banca para buscar seu precioso jornaleco.
Abriu as páginas e... Surpresa. Dessa vez, a possessão foi de ódio mortal.
Nem uma linha! Jurou de morte a jornalistinha vagabunda que a entrevistou.
Acordou um diretor do jornal e conseguiu o telefone da infeliz.

Ainda não são sete horas da matina, o telefone toca numa casinha
simples, entulhada de livros e crianças. Uma voz sonolenta atende. Maria
Luíza não poupa xingamentos, afinal quem essa repórter “filha da puta”
pensa que é. Berra o poder de seu marido fazendeiro poderoso, bem relacionado.
Diz que vai acabar com a raça da moça.


Está uma fera, esbraveja, joga o que alcança nos vidros das janelas, nos
espelhos. Destrói o que está na frente. Escandalosa, cega de raiva, arremessa,
quebra, detona. Não será famosa naquele dia, no seu dia de glória! No auge da
fúria, gritando impropérios não escuta a jornalista que tenta entender a situação
e lhe explicar que é impossível a tal matéria não ter sido publicada.
Por causa da exposição de Maria Luiza, ela havia saído mais tarde da
redação. Ficou até o começo da noite identificando as fotos das telas para as
legendas. Um esforço inútil de dar ênfase ao inexpressivo trabalho, porque era
matéria encomendada.


“Sairia sim e bem”, tinha comentado a editora pressionada pelos executivos,
capangas dos donos, gente assim com o marido da pintora. Burguesia
emergente, crème de la crème da aristocracia rural.
A jornalistinha pede mais uma vez que veja as páginas com calma e
desliga o telefone. Sim, o texto sobre a mostra de pinturas está lá, com destaque,
no jornal mais importante da roça. A madame não tinha o hábito da
leitura, nem de jornais, nem de ser artista.
Mais tarde, entorpecida pela mistura de remédios e bebidas, brindou
a venda de todos os quadros. Foi o marido quem arrematou a exposição
inteira, em segredo, usando nomes falsos.


Mas isso não saiu na imprensa.
Nunca mais Maria Luíza Ferreira Leite Monteiro e Silva ousou expor
ou pisar numa galeria de arte. Preferiu posar de benfeitora em chás e bazares.
Algumas linhas numa coluna social, de vez em quando, estavam de
bom tamanho.
Achou muito exaustiva vida de pintora famosa e, pior ainda, lidar
com o que chamava agora de a máfia dos jornalistas. Difamar, caluniar e
desprezar artistas de verdade, essa sim se tornou a grande arte da madame.
Uma expert em nulidades.


*Esta história az parte do livro "Era Uma Vez....... Outra Vez....... mais uma vez .......e  mais outra.......", de Nádia Timm.

Última modificação em Domingo, 12 Junho 2016 20:39

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