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Tatame ilustração de Apoena Timm
Publicado em Crônicas Di-Versos
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“Meu pai foi um vencedor.

Veio para Goiânia sozinho com oito anos,

foi engraxate até os 13, estudava e trabalhava e com 17 trouxe a família do

interior. Minha avó tinha ficado viúva e os irmãos dele tomaram a fazenda

dela, aliás, tomaram tudo”.

Era Pudim quem contava a história de sua família para Ivana, enquanto
descansavam deitados no tatame. Tinham treinado um pouco de
Judô, era Sábado e estavam mais a fim de descansar do que suar nos exercícios
físicos. Melhor os da memória. O rapaz começou a desfiar a trama
dramática porque Ivana havia comentado sobre as dificuldades emocionais
e materiais a um amigo que tinha perdido o pai há pouco.


Foi só começar a contar que Pudim logo submergiu nas histórias
das tragédias da grei de assassinos. Era assim. Havia uma fazenda, para os
lados de Varjão de Minas. “Um dia o pai do meu avô, o meu bisavô, reclamou
com uns primos que haviam mudado a cerca e levou uma coça deles.
Quando chegou em casa todo machucado, meu avô e os irmãos dele, meus
tios avós, resolveram tirar satisfação.

Foram na fazenda deles e mataram trinta pessoas, de crianças, até
cachorros. Sei que isso foi lá por 1929. A família teve proteção de uns figurões
e veio fugida para a região de Jaraguá, em Goiás. Cinco matadores
correram atrás, tentaram acabar com meu avô, mas não foi de bala que ele
morreu tempos depois. Dizem que foi envenenado, um dia não acordou”.

Ivana pensa no pai, filho de imigrante, paparicado, criado na mordomia
e que havia passado a vida jogando dinheiro fora, torrando o que
podia com amantes e bobagens. Ficou com vergonha e calou. Enquanto
isso, Pudim se animava. “Meu pai deixou seis fazendas, pensão de fiscal,
uma mineradora.

E tem mais, sabe o que mais esses tios fizeram?
Quando prenderam o presidente da província e a primeira dama foi
visitá-lo na cadeia, uns soldados passaram a mão na bunda dela. Pois é, isso
não passou em branco, não. Depois os atrevidos foram mortos por meus
parentes e os soldadinhos ficaram sem as orelhas”, contou em tom de graça.

Ele se esforça para manter a atenção da moça. Pudim era um tipo
diferente, parecia um antiatleta. Seus músculos teimavam não desenvolver
e a barriga dava sinais de sua gula e paixão por doces. O rosto tinha um ar
de menino, o olhar escondia a agilidade com que o cérebro analisava, raciocinava
rápido aliado a inteligência corporal era um lutador imbatível, com
quase duas décadas dedicadas às artes marciais. Um campeão respeitado,
apesar de parecer tão fora de forma.

Ivana está longe, mergulhada em lembranças mais recentes, não presta
atenção. A noite passada tinha sido uma noite de paixão, inesquecível. Havia
sentido tanto prazer que o resto do mundo perdeu a importância. As sensações
permaneciam intensas, deixando seu corpo relaxado e os pensamentos perderem
a força. As delícias de sentir o corpo do amado, o calor da pele, as horas em
gozo. Horas em gozo? Exagero, foi meia hora, mas tanta energia pulsante que o
tempo ganhou outra medida, mil anos de prazer.

Ivana estava aprendendo a lidar com o desejo e como fazer amor. Saborear
calmamente. A boca participava da dança, mexer o bumbum, cada
vez mais profundo e gostoso. A intimidade plena era seu segredo, algo que
não conseguia expressar com as palavras, ainda. Queria contar como era,
cada detalhe, mas parava quando percebia que o preconceito surgia e era
uma barreira tão intransponível quanto o medo que as mulheres tinham de
serem machucadas no sexo anal.

Melhor silenciar. Seu amado era um grande amante, mestre nas lições
da cama. Ensinava o que fazer para que ela se liberasse dos condicionamentos
e se entregasse cada vez mais, a envolvia com delicadeza. Como
uma meditação, o ato era um suave mergulho no corpo, presença plena,
sem pensamentos. Ela estava naquela fase da vida na qual as mulheres descobrem
que o valor de um homem vai além das aparências e conveniências.

Uma época em que amar e sentir orgasmos dão sentido às suas existências.
A maioria, se desencanta, perde de vez a ilusão. Outras poucas têm sorte.
Ela tem. Ivana sentia que irradiava a alegria daquele momento, era
tão precioso descobrir o quanto conseguia voar. Era cada vez maior a profunda
sensação de prazer. Gozos que mudaram sua vida. Delicadeza, confiança
e entrega, quem mais no mundo poderia vivenciar daquela maneira
o significado de amar?

Com disposição para tudo, se dedicava desde cedo ao corpo, corria
nas manhãs, algumas voltas do parque, no final do dia, depois do trabalho,
o tatame. Sob efeitos gozosos trazia no olhar o sinal de encantamento pela
vida e um sorriso de moça bem amada brilhando no rosto. Aos 29 anos, estava
em pleno vigor, beleza e alto astral. De vez em quando, sentia um abalo
de alma, quando tudo fala ao coração, uma emoção funda.

Pudim não parava de falar. Agora, resolvera contar uma aventura,
um ménage com lésbicas. Eram bonitas, primas. Claro que ele sobrou,
contou em detalhes como haviam transado. Assim, assim, depois, o vazio.
Quis sair correndo do quarto, quando elas o deixaram de lado, e nunca
mais ele topou um encontro a três.

Apesar das diferenças no temperamento e capacidades, com pouco
em comum, mesmo divergindo, Ivana e Pudim tinham amizade profunda
e respeito pela opinião do outro. Ouviam atentos, somavam suas versões,
compartilhavam a leveza com que os jovens percebem a vida, a boa e sincera
afeição.

“Pô, cara, que idéia sair com sapas. E você não aproveitou para provar
como é que um homem pode ser super gostoso”? Pudim cravou o olhar
nos olhos de Ivana. Não respondeu porque não entendeu. Macho para ele
não precisava ser carinhoso, isso era coisa de boiola.

Gostava de Ivana. Um gostar escondido há anos, tinham afinidades,
treinavam juntos, conversavam e brincavam muito. Eram amigos há tempos,
mas se pudesse, se tivesse alguma chance, faria com ela o que fez com
uma ex-namorada, sua paixão, aquela de quem arrancou a calcinha no cinema
e contou para todos os amigos, para a cidade inteira. Ele curtia escrachar.
Adorava quando a rapaziada o chamava de pudim humano, comedor
de carne viva.

Mas era segredo o quanto Ivana o intrigava e atraía. Mantinha distância,
ela era um mistério, tinha algo que não conseguia decifrar naquela
segurança e suavidade que emanavam de jeito dela olhar e do corpo. Parecia
saciada, sem ansiedade, tão feminina. Que mulher! De quimono assim
suada, despenteada, ainda assim estava linda. Pudim percebia que ela era
diferente, um ser sereno, em paz, e por se sentir privado da capacidade de
comunicar qualquer emoção, ignorante como uma porta nos assuntos de
sedução, concluía a conversa desajeitadamente. Era hora de correr ao cursinho,
queria ser juiz.

Às vezes, comentavam sobre as qualidades dela: flexível, maleável,
forte. Ivana ouvia, disfarçando com o olhar sonso perdido na paisagem da
janela, satisfeita em sua vaidade. Depois, quando estava só, em frente ao
espelho, se olhava nos olhos. Sentia-se transportada a outra esfera.
Sou mesmo uma mulher de sorte que aprendeu a se entregar de verdade.
Só isso, só isso tudo, ria e cantarolava.

Adorava o Pudim e suas histórias que anotava no caderninho mais
velho da gaveta. Efeito colateral da amizade e intimidade para render, quem
sabe um dia escrevesse uma novela, ou uma tese sobre homens e mulheres
em busca do caminho do tesão.

Escolheu a segunda opção. Ivana é uma mulher de sucesso. Em algumas
décadas, de professora universitária a uma grande reitora, em trajetória
incomum. Uma história para ser assunto bom de conversar, em outra
era, depois de viverem as verdades da vida.

Depois de desvendarem alguns mistérios, Pudim há de saber que é
tudo da Lei.
E a Lei, terá consciência, finalmente, é o Amor.

 

 

*Esta hstória faz parte do livro "Era Uma Vez....... Outra Vez....... mais uma vez .......e  mais outra.......", de Nádia Timm.

Última modificação em Quarta, 04 Janeiro 2017 22:50
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