Arquipélago da Madeira

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Suíça, de trem

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Um passeio imperdível pela Suíça com o Grand Train Tour

Lan Lanh

Lan Lanh

Lan Lanh sobe aos palcos do Teatro Glaucio Gill, no Rio de Janeiro, para apresentar o show "Batuque da Lan Lanh" nos dias 2, 3, 4, 5, 9, 10, 11 e 12 de junho. ...

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( da Série Contos da Quarentena) )

– Internada

/por Nádia Timm

 

Ainda que estivesse tudo normal, os dias crivados de mesmices, o tempo agendado, as rotinas insossas e a mesma, a mesma, solidão, agora seria diferente.

Haveria a dor maior cortada na carne, literalmente costurada, cirurgicamente remexida, remendada.

Apesar do clima de perplexidade, decidiu fazer a mochila e se internar no hospital em outra cidade, em Goiânia, no dia em que foi anunciada a primeira morte no Brasil provocada pela peste contemporânea. Deixou o planalto de Brasília, os ventos das tardes geladas.

No dia seguinte, morreu o primeiro brasileiro.

 Começava a sensação de desamparo de um povo que antes sabia rir e festejar com a leveza, a alegria absurda e irracional dos pássaros nas manhãs ensolaradas.

Brasília não há mais. O Brasil virou cenário no qual o monstro torpe e mesquinho anuncia dogmas obscuros, no avesso do humanismo, saltam das palavras mentirosas e beligerantes de um presidentezinho de arremedo.

Deixou Brasília para trás.

 Também deixou as ondas do Arpoador e de Copacabana para algum dia, talvez. Talvez o azul brilhante das águas de Ipanema voltasse a ser uma possibilidade de prazer. Viagens adiadas.

Mergulhou no interior.Foi para Goiânia para a cirurgia, convalescer e suportar a tragédia da pandemia.

O momento era de um Brasil absurdo e tão mesquinho. Não importava para onde fosse, sabia que era a hora do naufrágio e estava só.

Havia sim o Verme, além da pandemia.

O codinome Verme inundava as redes sociais, era do homem com discursos fascistas e performances de um neo-Hitler.

 Gestual, coreografias, símbolos de uma violência proscrita, mas agora rediviva. Monstruosa, absoluta, descarada.

O outro vírus, como um buquê de flores rosas invisível, trazia à tona em seu rastro o algo mais exasperante: o triunfo da ignorância.

 Eles se alimentavam mutuamente. O Verme se tornava enorme. Paquiderme. E misógino. E enorme. E racista. Enorme. E homofóbico. Em sua estupidez se tornava cada vez maior.

 Os brasileiros, ínfimos.

 E ela, a protagonista desta história?  Agora, prostrada na cama de um hospital, imobilizada, dedilhava o celular como quem dispara uma metralhadora. A guerra é fria, repetia.

A morte começa pela aniquilação da alma, delirava.

Tempos sombrios, idade das trevas pós-moderna, resmungava.

 O brasileirinho arrogante, ignorante, é gado. Manada manipulada, alienada, tosca.

Ela ali estendida, imóvel: anestesiada, assiste às bandeiras insistentes, sacudindo velhos chavões, glorificando ridículos líderes, absurdos chefes de gangues que se armam e instigam a violência, o preconceito, as dores, o revés do humano, o homem repartido, estilhaçado, imoral, hipócrita, um Brasil que não reconhece em ladainhas de generais de pijama.

Senis. Pátria amada virou slogan de uma nação vilipendiada. Criminosos travestidos de políticos rangem estúpidas ideias sobre a Terra plana e uma anacrônica invasão comunista, indiferentes à pilha de milhares de mortos pela Covid-19.

Um Verme está presidente do Brasil. De um Brasil recém-descoberto, sem poesia, feio e moralista, que odeia despudoradamente.

Um país no qual fascistas foram levados democraticamente ao poder à custa de mentiras. Ao chegarem, assumem a inumanidade impensável, materializada por palavras e gestos, a semântica do desprezo.

Foi assim que as dores se misturaram num ritual dramático e insensato. A dor do corpo parafusado, remexido, emendado e a dor na alma pela tragédia anunciada de um genocídio.

Resta o quê neste mundo desfeito, sem esperança? O Brasil não é mais o Brasil. Nem o colorido das paisagens e das peles. Nem as curvas de uma geometria harmoniosa.

Em tudo há desencanto.

Ali onde havia alegria, cresce a semente do inumano, à revelia de qualquer senso, a alma deste país se apequena. Frágil e superficial, uma cultura estraçalhada pela guerra. A quarentena brasileira é feita de absurdos e traições.

A lucidez foi traída.

Era outono e o céu de Goiânia brilhava em azuis em tons egípcios, a metrópole cravada no cerrado continha, talvez só para Ela, uma sensação de segurança, paz de vida eterna.

Era também um outro país, à  pouca distância de Brasília,  Goiânia era de outra matéria.

 Algum ingrediente misterioso há na essência das cidades.

 Talvez o contrassenso, atração dos contrários.  Ela, uma urbana deslumbrada, é surpreendida por um mundo que gravita em torno de terras, vacas, cavalos, bichos, seres abstratos para quem não conhece a natureza.

Novidades para quem conviveu com roncos de motores, carros, lanchas, helicópteros, gente espremida em ônibus e metrôs, ruídos, mendigos, praias, sóis, voos, ondas se espraiando na memória carioca.

Ela sente um desejo de sentir o prazer intenso de viver, VIVER, como viveu, um dia, na beira do mar, lá longe, num Rio de Janeiro de sua infância.

Antes tinha planos de mergulhar nos livros, rever a história oficial, a versão aceita de uma outra versão.

Era o projeto anterior ao vírus.

Seria um romance sobre a fantasia e as verdades.  Outros vermes atravessando com flechas e balas, disseminando à ferro e à doença, milhares de índios. Escravizando africanos durante séculos.

Vale tudo na terra sem lei. A reforma agrária é sonho. A América unida de Bolívar, desconhecida. Herdeiros da ignara flor do Lácio inculta e bela, colonizados, vendem a alma.

Ah nossa história.  Dezenas de povos participaram desta ideia de nação tropical, dezenas de deuses e rituais, danças e canções, quanta fome de vida e um pacto explícito de que sempre poderemos dar um jeito.

Às vezes, distorcendo a ética por trás da máscara risonha, da fantasia sentimental. Ah como somos piegas. Barrocos, românticos. Como nos fazemos de caridosos e gentis, corroídos que somos pela sensação de inferioridade, subalternos, colonizados, recalcados.

Ah este povo nosso. Padece de fome e miséria, século após século e apesar da tragédia anunciada, beija a mão do algoz. Ah elite. Burguesia cevada por superficialidades confortáveis e uma ignorância atroz, feito inconsciência absoluta das dimensões humanas, é rasa e torpe.

Fim, claquete. Fecha a cortina.

Apaga a luz e adormece.

 Seria lindo se adormecesse e cessasse esta loucura, este pesadelo.  Do vírus, do Verme. Mas é a vida, o paroxismo da vida, a chama da vida exaltando os vis instintos para que a dor se manifeste e didaticamente ensine a lei: Você é e está onde você se coloca.

Ela? Ela está no olho do furacão.

Sente a falta de ser tocada, abraçada, alisada, beijada, deliciosamente entregue ao prazer do corpo. Na espiral de felicidade, sem ilusões, sem exigências, só fluindo em si, sem enredos dramáticos de luta ou sacrifícios. Só mergulhando em si percebia a dimensão da existência.

Havia ainda aquela sensação de voo e queda.

Era quando a dor chegava, imensurável.

Vinha ainda a impressão de vácuo, como se houvesse uma imensa distância entre Ela e o mundo, as coisas, os ruídos das máquinas soando ritmamente com seus brilhos, hieróglifos em luzes.

E depois, e sempre em algum momento inesperado aquelas luvas a tocando, virando seu corpo, arranhando a pele, espetando, furando... Havia aqueles rostos mascarados e seus uniformes de astronauta.

Estaria em algum voo intergaláctico?

Talvez hipnotizada, a televisão repetindo a notícia duas mil vezes.  

Não, não conseguirá sobreviver à invasão de notícias falsas, em todas suas mídias sociais.

Não, não há como bloquear o inimigo, os inimigos, as infames mentiras circulando nas veias feito uma droga poderosa, alucinante, delirante.

Extravasa em lágrimas, gemidos, soluços.

 Está só.

 Não há com quem falar, não há mais em quem tocar. Há somente solidão e ruas vazias.

Espia na janela, assiste às dezenas de janelas, escuta os sons das panelas batidas em protestos solitários.

Está no corredor escuro de um hospital, uma corrente de ar frio e medo.

 Quando a vida saltará em festa e abraços e beijos? Bem na sua frente, nua. Irresistivelmente sensual, pedindo para viver, seguindo o impulso, a energia de um orgasmo, ou um milhão de orgasmos explodindo feito o sol, em zilhões de mega explosões, arremessada pós galáxias em outros mundos.

Paralelos, ou não.

Imaginários, ou não.

Uma nova Alice tão feliz em sua viagem. Madame Butterfly apaixonada, perplexa por tanta beleza na voz de Maria Callas. No túnel da garganta entoa l´amour, feelings, Nina Simone, feeling good.

A lista do Spotify, de música escolhida pelo maestro Alexandre, é o bálsamo na solidão daquelas tarde de quarentena. Das janelas vem o som metálico da revolta, das panelas. Há gritos em comoção a cidade esbraveja.

 Ela nem tenta mais se erguer, a curva da Covid19 subiu e a alcançou assim como a onda da praia distante.

O vírus veio em cheio e acertou seu peito. Febril, só percebe a vida em flashes. Assim passam os dias, semanas se esvaem.

Assim o tempo deixa de ser medido.

Em cena há apenas a luta entre a vida e morte.

O mal solidificado na indiferença, a sensação de bondade perdida. O desagradável peso acumulado pela maldade cultivada, ferindo princípios da civilidade, do humanamente possível.

Em tempos de pandemia, o mundo inteiro parece se proteger, cuidar, resguardar.

No Brasil, não. Nele a maldade impera.

Números de mortos são escondidos, aparelhos respiratórios são superfaturados, mentiras são espalhadas pelo Verme que envenena a nação.

Ele não se importa com os mortos, nem com os vivo, só o poder interessa.

Na Amazônia brasileira, depois dos incêndios das florestas, agora são assassinatos, grileiros invadem reservas indígenas e o ministro do meio-ambiente, inimigo explícito do meio-ambiente, declara que é hora de aproveitar que a mídia está voltada para a pandemia e fazer alterações nas leis ambientais.

Milhares de índios estão com as vidas ameaçadas.

Mais vulneráveis às infecções e à ganância de oportunistas sempre apoiados pelo governo corrupto.

Pela janelinha da memória recordou da floresta, da paisagem vista do avião, quando esteve no Quarup, no Alto Xingu, centenas de quilômetros de verde, recortados por traços/rios.

 Miniaturas sob as nuvens.

Lembra dos milhares de índios reunidos naquela homenagem aos mortos.

 Centenas e crianças. Corpos pintados, vermelho e negro, perfumados de urucum. Quanta beleza. Lembra do carinho intenso, do beijo profundo.

 Estava sonhando ou delirando.

 Revive sensação do corpo imantado de prazer, cheio de energia. E aí, vinha o desejo imenso de vida, a lembrança de como era livre e alegre.

A mão amada acariciando suas costas, segurando sua cintura. Aquela vibração deliciosa, tão íntima. Gozo imensurável, fonte de estímulo, o mundo exterior não a arrasta mais. Lucidez para perceber os níveis mais profundos da realidade. Algo se transforma, estimulação constante provocada pela vivência.

 Encara a ilusão do paraíso, enxerga.

Conhecia bem aquela sensação de encantamento!

Por mais que a violência se manifestasse em trágicas cenas, não a atingiam com se espectro de medo e terror.

Havia aquela alegria existencial, era feita desta substância. Era uma tênue fronteira entre mundos paralelos.

O que importava era seguir percebendo a suavidade daqueles instantes mágicos, tão leves, etéreos, como os sonhos. Ou como aquelas bolhas translúcidas flutuando em torno das risadas das crianças ou de jovens enamorados. Instantes que a vida emergia, como um êxtase pleno de amor.

Sentimentos preciosos prontos para eclodirem em abraços, beijos, na magnitude de uma explosão cósmica.

Agora existia o lá fora e o aqui dentro de mim.

E o aqui dentro de mim determinava seu estado de felicidade plena.

Nas semanas de isolamento guardou aquele sentimento. E sentimental que era multiplicou, replicou, exagerou suas fantasias. Talvez quando tudo passasse, viajassem para Paris, ou Caribe.

Quem sabe um final de semana no Rio, para matar a saudade? Os sinais do desejo. Talvez fosse o abraço. Era como se a felicidade coubesse naquele abraço.

Vontade de ficar ali, naquele instante quando o corpo se rende ao prazer de existir. Parecia simples, apenas se deixar levar em um mergulho nas emoções. Submergir, escapar de todas as dores do mundo, se sentir deus.

Foi quando Ele telefonou, rapidamente disse que estava tudo bem.  Ao desligar, percebeu que a grande nave pairava sobre seu corpo.

  Aí o cotidiano de sons, lamúrias e medos sumiram.

Ganhou a cena aquela imensa brancura, percepção de que algo mais transpunha a realidade para outro cenário. 

Feito uma ponte suspensa sobre sua cabeça, a percepção da vida interior veio junto.

O que éramos nós, ali desgarrados, solitários, isolados, enquanto vida em algum lugar ainda estaria a pulsar.

Ali não havia o menor ânimo, a menor possibilidade daquelas frivolidades essenciais como abraçar e beijar os filhos, um amado ou aos amigos, abraçar estreitando os corpos ou dando socos carinhosos.

Pouco nos víamos, por poucos minutos. Ele do outro lado da mesa, ou da tela do celular.

 Você do lado de lá.  Havia a mesa, a máscara, o tempo, a tela, a distância das

dúvidas e havia também aquela sensação intensa de prazer. Uma alegria de festa ao  vê- -lo, te ouvir, não não lembro o que você dizia, mas era algo muito engraçado, muito fora do ‘iscripeti” desta nossa época tão trágica.

Depois, por horas, fica a ressonância da tua presença grudada no meu coração. Sim! Ainda há coração e como eu te amava naqueles instantes.

Era uma sensação desmedida, que chegava tão forte que de repente, tinha vontade de cantar e dançar.

Depois, se atirava sobre os travesseiros e ficava mil anos tentando rever na memória cada segundo, cada palavra, vírgula, cada gesto seu.

 A última foi: não suma.

Mas eu vou sumir eu sei.

Começo a desaparecer quando a dor chega.

 Ela e a maldita saudade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Última modificação em Sábado, 05 Dezembro 2020 19:33

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